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EUA podem invadir o Brasil como fizeram com a Venezuela?

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Tropas especiais dos EUA desembarcam em exercício no litoral do Rio de Janeiro, reforçando alerta vermelho contra facções brasileiras. (Foto: Instagram)

O governo dos Estados Unidos anunciou a decisão de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. Essa medida coloca as duas facções brasileiras em categorias semelhantes às usadas contra grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico e o Cartel de los Soles, que estava associado ao antigo governo venezuelano de Nicolás Maduro.

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Na prática, essa classificação não é meramente simbólica. Ela abre espaço para sanções, bloqueio de bens, restrições financeiras e ações contra indivíduos, empresas ou organizações suspeitas de manter laços com essas facções. É como se Washington acendesse um alerta vermelho sobre qualquer relação econômica, logística ou operacional que possa sustentar essas facções.

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A medida também reacendeu uma questão delicada: se os Estados Unidos usaram o discurso do narcoterrorismo antes de agir contra a Venezuela, algo semelhante poderia ocorrer no Brasil?

O paralelo com a Venezuela
A comparação ganhou força porque, no caso da Venezuela, os Estados Unidos associaram o governo de Nicolás Maduro ao narcotráfico e ao Cartel de los Soles. Em janeiro de 2026, uma ofensiva dos EUA resultou na captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram levados para Nova York sob acusações relacionadas ao tráfico de drogas.

No entanto, de acordo com Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, há uma diferença fundamental entre os dois cenários.

“Na Venezuela, o governo americano não reconhecia Nicolás Maduro como presidente da República e abriu um processo criminal contra ele, acusando-o de ser o líder de uma quadrilha. Em contraste, não há acusações dos EUA contra Lula”, explica.

Ou seja, embora a retórica dos EUA tenha semelhanças, o contexto político e jurídico é distinto. No caso do Brasil, a acusação é direcionada a facções criminosas, não ao governo federal.

Ainda assim, a classificação amplia o poder de ação dos Estados Unidos. Pessoas associadas ao PCC ou ao CV que viajem para os EUA podem ser presas. Empresas com ativos nos EUA também podem ser afetadas se forem acusadas de manter relações com essas organizações.

Pressão política e risco militar
Para Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, o discurso do narcoterrorismo pode servir como ferramenta de pressão. Segundo ele, o objetivo dos EUA no Brasil não seria derrubar o governo, mas forçar um alinhamento maior com a agenda de Washington.

“Assim, se na Venezuela esse discurso de narcoterrorismo serviu para justificar a contenção regional e o estrangulamento político do regime, no Brasil ele funciona mais como uma ferramenta de pressão externa e disputa interna, inclusive porque atores americanos podem se alinhar a setores do bolsonarismo”, afirmou Fancelli.

Santoro vê um risco mais severo, embora não o considere inevitável. Para ele, a classificação cria a possibilidade de ações militares dos EUA contra alvos ligados às facções, como o abatimento de aviões ou o afundamento de embarcações suspeitas, semelhante ao que ocorreu no litoral venezuelano.

No entanto, qualquer ação militar dos Estados Unidos dentro do território brasileiro sem autorização do governo federal seria considerada uma agressão internacional e um ato de guerra.

Fancelli avalia que uma intervenção militar direta é altamente improvável. Para ele, o cenário mais realista envolve sanções financeiras, investigações sobre bancos e fintechs, pressão sobre portos e empresas de logística, restrições migratórias e exigências de cooperação policial.

A última vez que uma intervenção militar norte-americana contra o Brasil esteve no horizonte político foi em 1964, durante as tensões que antecederam o golpe de 31 de março. Agora, o cenário é diferente, mas a palavra “terrorismo” voltou a mexer em peças importantes da diplomacia.

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