
MV Hondius navegando no Atlântico sob alerta sanitário (Foto: Instagram)
Um cruzeiro de expedição que atravessava o Atlântico se tornou o foco de uma investigação internacional de saúde após a detecção de casos de hantavírus entre passageiros do MV Hondius, da empresa Oceanwide Expeditions. O navio seguia uma rota de longa distância entre a Argentina e Cabo Verde, transportando quase 150 pessoas, quando uma série de mortes e internações alertou as autoridades de saúde.
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De acordo com informações divulgadas, três passageiros faleceram após a viagem no navio. Entre eles, um cidadão holandês e um alemão morreram durante o cruzeiro. A esposa do passageiro holandês também faleceu pouco depois, enquanto acompanhava o corpo do marido em uma viagem de retorno.
O caso da mulher chamou a atenção especial da Organização Mundial da Saúde, pois ela desembarcou na ilha de Santa Helena em 24 de abril, apresentando sintomas gastrointestinais. No dia seguinte, ela pegou um voo para Joanesburgo, na África do Sul. Durante a viagem, seu estado de saúde piorou, e ela faleceu no dia seguinte após chegar a um serviço de emergência.
Posteriormente, exames confirmaram por PCR que ela estava infectada por hantavírus. A partir daí, a OMS iniciou uma busca por pessoas que estavam no mesmo voo, visando rastrear possíveis contatos e evitar novos casos.
A busca pelos passageiros do voo
A companhia aérea sul-africana Airlink informou que havia 82 passageiros e seis tripulantes no avião que a mulher viajou. Como o hantavírus pode, em casos raros, ser transmitido de pessoa para pessoa dependendo da cepa, as autoridades querem localizar essas pessoas para monitoramento.
O hantavírus é mais conhecido por sua associação com roedores. A transmissão geralmente ocorre quando humanos entram em contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados, especialmente em ambientes fechados, mal ventilados ou contaminados. Partículas secas podem ficar suspensas no ar e ser inaladas, criando um risco invisível.
No entanto, a situação envolvendo o MV Hondius ficou mais delicada porque a cepa identificada em alguns casos foi a Andes, uma variante associada à possibilidade de transmissão entre humanos. Essa característica é incomum dentro do grupo dos hantavírus, mas já foi observada em surtos anteriores.
De acordo com a OMS, os sintomas podem surgir entre duas e quatro semanas após a infecção. Em alguns casos, aparecem já na primeira semana. Em outros, podem demorar até oito semanas. Esse intervalo longo dificulta o rastreamento, pois uma pessoa exposta pode viajar, trabalhar e circular normalmente antes de qualquer sinal claro da doença.
O que é o hantavírus
O hantavírus não é uma doença única com uma apresentação sempre igual. Ele pode causar síndromes diferentes, dependendo da região e da cepa envolvida. Nas Américas, a infecção costuma estar associada à síndrome cardiopulmonar por hantavírus, conhecida pela sigla HCPS. Essa forma afeta principalmente os pulmões e o coração.
A OMS informa que a taxa de mortalidade dessa síndrome geralmente fica entre 20% e 40%, podendo chegar a 50% em algumas situações. É por isso que o caso recebeu tanta atenção: não se trata de uma infecção comum de viagem, mas de uma doença que pode evoluir rapidamente e exigir cuidados intensivos.
Na Europa e na Ásia, o hantavírus frequentemente causa outra condição, chamada febre hemorrágica com síndrome renal, ou HFRS. Nesse caso, os principais alvos são os rins e os vasos sanguíneos. A taxa de mortalidade é menor, variando entre 1% e 15%, mas ainda pode ser grave.
No episódio do MV Hondius, a identificação da cepa Andes aumentou a preocupação. O Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul informou que essa cepa foi detectada tanto no caso da mulher holandesa que morreu após o voo quanto no caso de um passageiro britânico que precisou ser internado em estado grave.
Casos confirmados e suspeitos no navio
Até 6 de maio, havia oito casos relacionados ao episódio: três confirmados e cinco suspeitos. Entre eles estavam as três pessoas que morreram. Um passageiro britânico foi removido do navio por razões médicas e levado para a África do Sul, onde recebeu diagnóstico de hantavírus. Ele permanecia em estado crítico, porém estável.
Além dele, dois tripulantes apresentaram sintomas respiratórios agudos. Outro passageiro, ligado ao cidadão alemão que morreu, também entrou na lista de preocupação das autoridades. Essas três pessoas foram retiradas do navio por via aérea e levadas para os Países Baixos.
A Oceanwide Expeditions informou que a evacuação médica estava programada para a manhã de 6 de maio. Mais tarde, a OMS confirmou que a transferência havia sido concluída com sucesso.
A empresa também declarou que dois médicos infectologistas, enviados dos Países Baixos por recomendação do RIVM, o instituto nacional holandês de saúde pública, embarcariam no MV Hondius e permaneceriam no navio após a saída prevista de Cabo Verde. Um profissional médico adicional já estava a bordo.
Segundo a operadora, “após a orientação do RIVM, dois médicos infectologistas, atualmente a caminho dos Países Baixos, embarcarão no MV Hondius e permanecerão com a embarcação após sua saída prevista de Cabo Verde, desde que os três indivíduos sejam transferidos com sucesso”.
A empresa acrescentou: “Um profissional médico adicional já está a bordo do MV Hondius”.
A tensão sobre o próximo destino
Depois da evacuação médica, o destino planejado do navio seria as Ilhas Canárias. No entanto, a possibilidade de atracação provocou reação política imediata. O presidente das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo, declarou que “não pode permitir” que o cruzeiro atraque.
A preocupação envolve não apenas a gravidade da doença, mas também a necessidade de definir procedimentos de quarentena, triagem e desembarque. Em uma embarcação com dezenas de passageiros, qualquer decisão precisa equilibrar assistência médica, controle sanitário e logística internacional.
A Oceanwide Expeditions afirmou: “Neste estágio, o destino planejado para o MV Hondius após a transferência médica bem-sucedida é as Ilhas Canárias”.
A empresa também disse que continua em “discussão próxima e contínua com as autoridades relevantes” sobre o ponto exato de chegada, os procedimentos de quarentena e triagem para todos os hóspedes e um cronograma preciso.
Em outro trecho, declarou: “Não podemos confirmar os detalhes da viagem posterior dos hóspedes neste estágio. Isso depende da orientação médica e do resultado de procedimentos rigorosos de triagem”.
Enquanto isso, embarcações hospitalares com pessoas usando roupas de proteção foram enviadas em direção ao MV Hondius. A cena reforçou o grau de cautela das autoridades diante de uma doença rara, grave e com período de incubação prolongado.
Os sintomas que preocupam as autoridades
A síndrome cardiopulmonar por hantavírus, mais comum nas Américas, costuma começar com sintomas que podem parecer genéricos. Nas fases iniciais, a pessoa pode apresentar cansaço intenso, febre, dores musculares, dor de cabeça, tontura, calafrios, náuseas, vômitos e diarreia.
Esses sinais podem surgir entre uma e oito semanas após o contato com o vírus. O problema é que, no começo, eles podem ser confundidos com outras infecções. A doença se torna mais ameaçadora quando avança para sintomas respiratórios.
Na fase posterior, aparecem tosse, falta de ar e sensação de aperto no peito. Esse é o momento em que os pulmões podem ser gravemente afetados, exigindo atendimento rápido e, em alguns casos, internação em unidade de terapia intensiva.
Já a febre hemorrágica com síndrome renal, mais comum em partes da Europa e da Ásia, costuma começar entre uma e duas semanas após a infecção. Os primeiros sinais incluem dor de cabeça intensa, dor nas costas, dor abdominal, febre, calafrios, náusea e visão turva.
Com a progressão, podem surgir pressão arterial baixa, sangramento interno e insuficiência renal aguda. Por atingir vasos sanguíneos e rins, essa forma da doença também exige monitoramento rigoroso.
No caso do MV Hondius, a investigação envolve passageiros, tripulantes, equipes médicas, autoridades de diferentes países e pessoas que sequer estavam no cruzeiro, mas compartilharam um voo com uma paciente depois confirmada com hantavírus. A combinação de viagem internacional, sintomas variados e uma cepa capaz de transmissão humana transformou o episódio em uma operação sanitária de grande alcance.


