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Por que quase 90% das pessoas são destras?

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Evolução moldou nossa preferência pela mão direita (Foto: Instagram)

A preferência humana pela mão direita é tão comum que muitas vezes passa despercebida. A maioria das pessoas escreve, corta alimentos, abre portas, segura ferramentas e realiza tarefas delicadas usando a mão direita, enquanto uma minoria, como Jimi Hendrix com sua guitarra invertida, segue o caminho dos canhotos. No entanto, essa assimetria não é apenas uma peculiaridade do dia a dia; ela pode estar relacionada a dois aspectos fundamentais da nossa evolução: o bipedalismo e o desenvolvimento de cérebros maiores.

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Um estudo divulgado na revista PLOS Biology examinou dados de 2.025 macacos e grandes primatas, abrangendo 41 espécies distintas. O objetivo era comparar o quanto outros primatas também demonstram preferência por um lado do corpo, um fenômeno conhecido como lateralização. Algumas espécies, como os macacos-aranha e os langures, exibem níveis relativamente altos desse comportamento, mas nada tão acentuado quanto o que se observa em humanos.

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De acordo com os pesquisadores, nossa espécie representa uma exceção evolutiva. Considerando a posição que ocupamos na árvore dos primatas, não seria esperado que tivéssemos uma preferência manual tão pronunciada. Contudo, a dependência humana de uma mão dominante, especialmente a direita, é muito mais evidente do que em nossos parentes evolutivos.

O papel de andar sobre duas pernas

A explicação começa com uma mudança significativa no corpo dos nossos ancestrais. Quando os primeiros hominídeos começaram a caminhar eretos, as mãos deixaram de ser usadas principalmente para locomoção. Elas ficaram livres para outras funções: carregar objetos, fabricar ferramentas, manipular alimentos, se comunicar por gestos e realizar movimentos cada vez mais precisos.

Essa liberdade abriu um novo campo de possibilidades. Se uma mão começava a se especializar em tarefas delicadas, como bater, cortar, segurar ou moldar objetos, essa divisão poderia trazer vantagem. Em vez de as duas mãos realizarem exatamente a mesma função, uma podia assumir o papel principal, enquanto a outra auxiliava.

Os pesquisadores também analisaram a proporção entre braços e pernas, conhecida como índice intermembral. Humanos possuem pernas longas em relação aos braços, algo associado ao bipedalismo. Isso nos diferencia de primatas de braços longos, adaptados a se mover entre galhos. Quando esse fator foi incluído nos modelos, a peculiaridade da preferência humana pela mão direita deixou de parecer tão enigmática.

Cérebros maiores e mãos especializadas

O segundo elemento crucial foi o aumento do cérebro. À medida que o volume cerebral aumentou ao longo da evolução humana, também teria aumentado a especialização entre os hemisférios cerebrais. Essa reorganização pode ter tornado certos comportamentos lateralizados mais eficientes.

Os autores do estudo usaram dados arqueológicos sobre proporções corporais e volume cerebral de hominíneos antigos para simular como a preferência manual poderia ter evoluído. O resultado sugere que ela surgiu gradualmente. Em espécies antigas, como Ardipithecus e Australopithecus, a lateralização provavelmente era fraca. Já em Homo erectus e neandertais, a tendência para o lado direito teria se tornado mais forte, atingindo seu ápice em Homo sapiens.

Um caso curioso envolve os chamados “hobbits” humanos da Indonésia, membros pequenos do gênero Homo. Segundo a análise, eles provavelmente tinham uma preferência manual menos intensa, possivelmente devido ao cérebro menor e a um estilo de vida ainda parcialmente ligado às árvores.

“Este é o primeiro estudo a testar várias das principais hipóteses sobre a lateralidade humana em uma única estrutura”, explicou o pesquisador Dr. Thomas A. Püschel.

“Nossos resultados sugerem que ela provavelmente está ligada a algumas das características fundamentais que nos tornam humanos, especialmente caminhar eretos e a evolução de cérebros maiores”, acrescentou.

Ainda persiste uma pergunta intrigante: se a evolução parece ter favorecido tanto o uso da mão direita, por que algumas pessoas continuam nascendo canhotas? O estudo ajuda a explicar por que a preferência manual existe, mas esse pequeno desvio canhoto ainda permanece como uma peça viva do quebra-cabeça humano.

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