
Civis em fuga: a face dos “safáris humanos” no cerco de Sarajevo (Foto: Instagram)
Durante o cerco de Sarajevo, um dos momentos mais sombrios da guerra da Bósnia, surgiu uma acusação que parece saída de um pesadelo histórico: a de que indivíduos ricos teriam pago para entrar na cidade sitiada e atirar contra civis. Denominada de “safáris humanos de atiradores”, a acusação ganhou força com a investigação do jornalista italiano Ezio Gavazzeni, que apresentou uma denúncia formal sobre o caso.
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Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, esteve sob cerco por quase quatro anos nos anos 1990. Entre 1992 e 1995, mais de 11 mil pessoas perderam a vida na cidade, muitas delas vítimas de bombardeios e tiros de atiradores posicionados nas colinas ao redor. A vida cotidiana dos habitantes era marcada por travessias arriscadas, ruas vigiadas por franco-atiradores e uma constante atmosfera de medo.
Dentro desse cenário, a denúncia investigada por Gavazzeni adiciona um elemento ainda mais perturbador: segundo ele, pessoas abastadas de diversas nações teriam pago para serem levadas a posições de tiro nas áreas controladas por forças sérvias, onde poderiam atirar contra civis indefesos.
Ezio Gavazzeni afirma que cerca de 500 pessoas, provenientes de países ocidentais, teriam participado desses supostos “safáris”. De acordo com sua investigação, os participantes não seriam combatentes comuns, mas sim estrangeiros ricos que pagavam para matar civis durante o cerco.
A acusação envolve uma rede clandestina que, segundo o jornalista, teria conexões em diferentes países europeus. Essa estrutura seria responsável por encontrar clientes ricos, organizar os deslocamentos e proporcionar acesso às áreas de onde os disparos eram efetuados.
Gavazzeni descreveu o esquema como algo extremamente secreto, sem registros oficiais de pagamento. O dinheiro, segundo ele, circulava em espécie, dentro de malas ou bolsas, fora de qualquer contabilidade formal. A organização teria uma base na Bélgica e ligações com intermediários em outros países europeus.
O jornalista declarou ao LADbible: “O chocante é que havia tarifas estabelecidas: 100 milhões de liras, de 1992 a 1995, por uma criança ou uma jovem; 70 milhões por uma mulher; 50 milhões por um homem; e pouco menos de 20 milhões por uma pessoa muito idosa.”
Convertidos aproximadamente a partir dos valores mencionados em libras, esses preços corresponderiam a cerca de 52 mil euros por uma criança ou jovem, 35 mil euros por uma mulher, 26 mil euros por um homem e 10 mil euros por uma pessoa muito idosa. Os valores variavam conforme o “alvo”, com crianças e mulheres sendo as vítimas mais caras.
Durante o cerco, Sarajevo ficou conhecida por suas vias perigosas onde civis corriam para tentar escapar dos disparos. Os moradores precisavam atravessar ruas abertas para buscar água, comida ou chegar ao trabalho. Em muitos lugares, qualquer movimento podia atrair tiros vindos das colinas.
A cidade vivia sob uma combinação de fome, isolamento, bombardeios e medo. As janelas se tornaram pontos vulneráveis, as ruas se transformaram em corredores de risco e a vida comum foi comprimida por uma guerra que atingia diretamente bairros, mercados, escolas e hospitais.
As denúncias dos “safáris humanos” se apoiam justamente nesse contexto. Segundo os jornalistas que investigaram o caso, a geografia da cidade cercada teria permitido que estrangeiros fossem levados a posições elevadas para disparar contra pessoas dentro da área urbana.
Gavazzeni reconhece que encontrar uma prova definitiva é extremamente difícil. Os eventos teriam ocorrido há mais de 30 anos, em meio a uma guerra, sem fotos ou vídeos conhecidos que documentem diretamente esses supostos turistas atirando. Ainda assim, ele afirma que o conjunto de depoimentos aponta para algo mais sólido do que uma simples lenda.
Ele disse: “Esses eventos datam de 30 anos atrás; não há fotos ou vídeos. Acredito que passar de uma ‘lenda urbana’, que era o que isso era antes da minha investigação, para um ‘fato’ estabelecido acontece por meio de testemunhos.”
E completou: “Quando há muitos testemunhos dados por pessoas que não se conhecem, mas todos convergem para o mesmo ponto, então podemos falar de um fato.”
Um dos pontos centrais levantados por Gavazzeni é a suposta existência de um arquivo aberto em 1993 pelos serviços secretos italianos, então conhecidos como SISMI. Segundo ele, esse documento mencionaria cinco italianos interceptados e identificados nas colinas ao redor de Sarajevo.
O jornalista afirma que três pessoas confirmaram a existência desse arquivo: Edin Subasic, Michel Giffoni e Adriano Sofri. Para Gavazzeni, esse detalhe muda o peso da denúncia, pois indicaria que autoridades italianas já tinham conhecimento de algo relacionado ao caso durante a própria guerra.
Ele declarou: “Também não devemos esquecer que há um arquivo aberto em 1993 em Sarajevo pelos nossos serviços secretos, o SISMI, que menciona especificamente cinco italianos interceptados e identificados pelos serviços nas colinas ao redor de Sarajevo.”
Depois, acrescentou: “Três testemunhos confirmam a existência desse arquivo: Edin Subasic, Michel Giffoni e Adriano Sofri.”
Na avaliação dele, a possível existência de um documento oficial com nomes de suspeitos indicaria que o assunto não dependeria apenas de relatos isolados. “O fato de que esse arquivo existe, e que ele inclui cinco nomes de caçadores-atiradores, mostra que não estamos mais lidando apenas com alguns testemunhos, mas com um fenômeno documentado”, afirmou.
As acusações não aparecem apenas na investigação de Gavazzeni. O jornalista croata Domagoj Margetic também investigou o tema e publicou um livro chamado Pay and Shoot, algo como “Pague e Atire”. Na obra, ele afirma que turistas pagavam grandes quantias para atirar contra civis, incluindo mulheres grávidas.
Margetic também alegou que um membro de uma família real europeia teria participado do esquema. Segundo ele, essa pessoa chegaria de helicóptero e teria interesse em atirar contra crianças. A acusação é grave, mas depende de documentos e relatos que ainda precisam ser avaliados com extrema cautela.
O jornalista croata afirmou ainda que recebeu documentos de Nedzad Ugljen, um oficial da inteligência bósnia. Ugljen foi morto a tiros em 1996. Segundo Margetic, os documentos indicavam os preços cobrados para que estrangeiros fossem levados até Sarajevo e posicionados em locais de tiro.
Outro nome citado no caso é o do ex-fuzileiro naval norte-americano John Jordan. Em 2007, durante depoimento em Haia, ele afirmou que nunca viu diretamente um turista disparando, mas disse que “atiradores turistas” iam a Sarajevo “para dar tiros em civis para sua própria gratificação”.
As denúncias continuam cercadas por um obstáculo central: a distância entre testemunhos consistentes e prova material definitiva. Para Gavazzeni, porém, a repetição dos relatos, os nomes citados, as investigações paralelas e a possível existência de um arquivo dos serviços secretos italianos tornam o caso impossível de ser tratado apenas como rumor.


