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Mãe teme ser pedófila e considera se entregar à polícia após pensamentos intrusivos

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Lauren Carrigher e o TOC pós-parto: da angústia ao alívio (Foto: Instagram)

Uma mãe de três filhos viveu meses de terror com sua própria mente após começar a ter pensamentos intrusivos de teor sexual e violento no pós-parto. O que parecia ser um indício de que ela havia se tornado perigosa foi, na verdade, diagnosticado como uma forma rara e pouco conhecida de transtorno obsessivo-compulsivo.

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Lauren Carrigher, com 35 anos, mora em Essex, na Inglaterra, e enfrentou uma grave crise de saúde mental em janeiro de 2024, poucas semanas após o nascimento de sua filha. Em uma noite, ficou convencida de que a televisão explodiria. O pânico foi tão intenso que ela foi levada ao hospital, acreditando estar tendo um ataque cardíaco.

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Na ocasião, Lauren foi diagnosticada com depressão pós-parto e começou a tomar antidepressivos. Contudo, cerca de um mês depois, os sintomas mudaram de forma assustadora. Ela passou a ter pensamentos intrusivos de teor sexual e violento, imagens mentais que surgiam sem controle e a deixavam em desespero.

O medo cresceu até atingir proporções devastadoras. Lauren começou a acreditar que poderia ser pedófila e que precisava ser presa. “Eu sentia que devia chamar a polícia contra mim mesma”, relatou.

Quando a mente virou uma prisão

Segundo Lauren, o auge dos pensamentos intrusivos ocorreu em agosto de 2024, quando teve a ideia obsessiva de que poderia matar um familiar. A partir daí, o medo passou a controlar sua rotina. Ela tinha pavor de ficar sozinha, temia machucar alguém e começou a tomar medidas extremas em casa.

Lauren contou que escondeu todas as facas e chegou a trancar as janelas por medo de pular. Sua mãe precisou morar com ela por um tempo, pois Lauren não confiava mais em si mesma. Mesmo sem querer machucar ninguém, ela vivia aterrorizada pela possibilidade de perder o controle.

“É tão intenso e horrível que você não sabe no que acreditar”, explicou. “Seu cérebro diz que você é essa pessoa vil e nojenta. É debilitante. Eu realmente acreditei por cerca de seis meses que era pedófila e que precisava ir para a cadeia.”

As tarefas mais simples também se tornaram um tormento. Levar e buscar as crianças na escola, algo comum para muitos pais, passou a desencadear crises intensas. Ao ver as crianças saindo da escola, Lauren tinha ataques de pânico e ansiedade.

“Era horrível, como viver um inferno todos os dias. Você fica com medo de si mesma e dos próprios pensamentos”, disse.

Os pensamentos não se limitavam a crianças. Lauren também relatou imagens intrusivas envolvendo adultos da família. Em uma ocasião, enquanto conversava normalmente com parentes, pensamentos sexuais indesejados surgiam, deixando-a horrorizada. Para ela, o mais perturbador era a distância entre sua vida real e o que surgia em sua mente.

“Não houve nenhum momento da minha jornada em que eu sentisse prazer com isso ou quisesse fazer alguma coisa”, esclareceu.

O diagnóstico que trouxe alívio

Após perder cerca de 35 quilos devido à intensa ansiedade e pensamentos intrusivos, Lauren buscou ajuda hospitalar. Ela passou três meses em uma unidade de saúde mental até finalmente receber o diagnóstico correto: transtorno obsessivo-compulsivo pós-parto.

Para muitas pessoas, receber um diagnóstico psiquiátrico pode ser assustador. Para Lauren, foi o contrário. A explicação trouxe um alívio enorme, pois mostrou que ela não era “quebrada” nem “louca”, como havia acreditado por meses.

“Eu não conseguia acreditar, depois de todos aqueles meses em casa em um estado terrível e tendo todos aqueles pensamentos intrusivos”, contou. “Foi um alívio ter algo e saber que eu não estava quebrada e não estava louca, mas que eu tinha TOC.”

O transtorno obsessivo-compulsivo pode envolver pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos que surgem repetitivamente e causam intensa ansiedade. Para aliviar essa angústia, a pessoa pode desenvolver comportamentos de evitação, checagem, repetição ou busca constante por garantias.

No caso de Lauren, havia também o contexto do pós-parto. A chegada de um bebê pode provocar mudanças físicas, hormonais, emocionais e sociais profundas. Em algumas pessoas, esse período pode estar associado a quadros de depressão, ansiedade, psicose pós-parto ou TOC pós-parto. O diagnóstico correto é essencial, pois sintomas semelhantes podem ter causas e tratamentos diferentes.

Lauren chegou a receber medicação antipsicótica, mas afirma que a virada mais importante ocorreu quando começou a terapia, em abril. A partir daí, passou a trabalhar diretamente com os pensamentos intrusivos e com o medo que eles provocavam.

O que é P-OCD

Lauren decidiu tornar pública sua história para falar sobre uma condição chamada P-OCD, sigla em inglês para transtorno obsessivo-compulsivo com tema pedófilo. Apesar do nome assustador, não se trata de pedofilia. É uma forma de TOC em que a pessoa tem medo obsessivo de ser ou de se tornar pedófila.

Nesse quadro, os pensamentos sexuais indesejados envolvendo crianças aparecem como intrusões mentais que causam repulsa, pânico, vergonha e desespero. A pessoa não sente prazer com esses pensamentos. Pelo contrário, costuma ficar horrorizada com eles e passa a evitar qualquer situação que possa ativá-los.

Entre os medos relatados por pessoas com P-OCD estão pensamentos sexuais intrusivos e não desejados sobre crianças, receio de que emoções positivas em relação a uma criança sejam interpretadas como algo sexual, medo de que um contato acidental tenha algum significado impróprio e dúvida obsessiva ao notar que uma criança é bonita ou fofa.

Também podem surgir perguntas mentais repetitivas, como: “Será que fiz algo inadequado quando era mais jovem?”, “E se eu perder o controle perto de uma criança?” ou “E se eu fizer algo errado quando tiver um bebê?”. Essas perguntas não aparecem como desejos, mas como dúvidas aterrorizantes, presas em um ciclo de ansiedade.

A diferença entre P-OCD e transtorno pedofílico é fundamental. O transtorno pedofílico, segundo a definição clínica citada pelo psicólogo Federico Ferrarese, envolve fantasias, impulsos ou comportamentos sexualmente excitantes, recorrentes e intensos, relacionados a crianças pré-púberes, com duração de pelo menos seis meses. No P-OCD, a dinâmica é oposta: a pessoa se desespera com os pensamentos, tenta fugir deles e teme profundamente que eles signifiquem algo sobre seu caráter.

Organizações especializadas em TOC também descrevem o P-OCD como um transtorno de ansiedade e incerteza. A pessoa fica presa tentando provar para si mesma que não é perigosa, mas cada tentativa de buscar certeza acaba alimentando novas dúvidas.

Como Lauren recuperou a rotina

O tratamento que mais ajudou Lauren foi a terapia de exposição. Nesse tipo de abordagem, a pessoa aprende a enfrentar os gatilhos de forma gradual e segura, sem recorrer aos comportamentos de evitação que mantêm o ciclo do TOC. O objetivo não é “gostar” dos pensamentos nem aceitá-los como verdade, mas entender que pensamentos intrusivos podem aparecer sem representar intenção, desejo ou identidade.

Com o tempo, Lauren passou a perceber que as imagens mentais eram apenas pensamentos. Assustadores, sim, mas não provas de quem ela era. “Foi só quando comecei o trabalho de exposição que percebi que eles são apenas pensamentos, não sou eu como pessoa”, explicou.

Hoje, ela afirma que raramente tem pensamentos intrusivos e que a ansiedade e os ataques de pânico desapareceram completamente. Depois de meses dominada pelo medo, Lauren diz estar vivendo sua “melhor vida” e quer que outras pessoas saibam que não estão sozinhas.

A vergonha, segundo ela, foi um dos maiores obstáculos. Durante muito tempo, Lauren evitava falar sobre o que passava pela cabeça porque se sentia enojada com os próprios pensamentos. Essa solidão tornava tudo mais pesado, como se o silêncio confirmasse seus piores medos.

“Eu tinha muita vergonha e raramente falava sobre qualquer um dos meus pensamentos intrusivos. Eu ficava enojada com meus próprios pensamentos”, disse.

Ao compartilhar sua experiência, Lauren tenta quebrar um tabu que mantém muitas pessoas sofrendo escondidas. O caso mostra como certos transtornos mentais podem vestir máscaras extremamente cruéis, levando alguém a confundir medo com culpa, pensamento com intenção e ansiedade com identidade.

Para quem vive algo parecido, o ponto central da história de Lauren é que pensamentos intrusivos não são confissões secretas da mente. Em quadros como o TOC, eles podem ser justamente aquilo que a pessoa mais teme, rejeita e não deseja. Por isso, a avaliação profissional faz tanta diferença: ela separa o ruído da realidade e abre caminho para tratamento adequado.

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