Timothy Andrews, de 66 anos, passou 271 dias sem precisar de diálise após receber um rim de porco em janeiro de 2025, nos Estados Unidos. O procedimento de xenotransplante foi realizado pela equipe do brasileiro Leonardo Riella, professor da Harvard Medical School, e estabeleceu um novo marco de sobrevivência com um rim de origem animal.
Antes da cirurgia, Andrews enfrentava um estágio terminal de doença renal e havia passado um ano e meio fazendo diálise. A condição afetou sua rotina a ponto de ele precisar usar cadeira de rodas e deixar de realizar atividades que costumava fazer, como acampar.
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A situação mudou depois do transplante. Segundo Riella, Andrews recuperou atividades do cotidiano e passou a viver sem as sessões de diálise. “Pouco tempo depois da cirurgia, ele já tinha uma vida normal. Ele voltou ao acampamento, cortava madeira, carregava peso, comia o que queria, não precisava de diálise. Era uma outra vida”, conta o médico.
O próprio paciente relatou a diferença que sentiu após receber o órgão. Em entrevista ao Jornal Nacional, Andrews afirmou: “Antes da cirurgia, me disseram que eu passaria o resto da vida fazendo diálise. Eu ficava doente o tempo todo, dormia muito, vomitava. Eu mal conseguia andar. Com o rim de porco, me senti ótimo. Assim que saí da mesa de cirurgia, eu estava sapateando. Literalmente”.
O rim funcionou durante nove meses, mas precisou ser retirado depois que o sistema imunológico passou a atacar o órgão. Antes disso, Andrews havia desenvolvido uma infecção bacteriana, o que levou à redução dos medicamentos imunossupressores usados para evitar a rejeição.
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Com a retirada do rim suíno, Andrews recebeu um transplante humano 82 dias depois. Segundo as informações fornecidas, o novo órgão continuava funcionando sem sinais de rejeição.
O resultado também supera a marca registrada anteriormente pela própria equipe de Riella. Em 2024, outro paciente havia recebido um rim de porco e sobreviveu por 52 dias. Ele morreu em decorrência de condições cardíacas que não tinham relação com o procedimento.
A experiência com Andrews integra as pesquisas sobre o uso de órgãos de animais em seres humanos. Uma das estratégias utilizadas envolve a edição genética dos porcos doadores para eliminar os principais alvos de rejeição do organismo humano e reduzir as chances de ataque ao órgão transplantado.
A pesquisa é desenvolvida em meio à falta de órgãos disponíveis para transplantes. No Brasil, 45 mil pessoas aguardam atualmente por um transplante renal, segundo dados do Ministério da Saúde. O rim está entre os órgãos mais transplantados no país, e um doador falecido pode atender dois pacientes, além das possibilidades de doação entre pessoas vivas.
Para Riella, o caso de Andrews representa uma etapa da pesquisa e pode ajudar a desenvolver o xenotransplante como uma alternativa temporária para pacientes que aguardam um órgão humano. “A gente conseguiu ver o quanto esse tempo de sobrevida com o xenotransplante foi impactante na vida dele. Aprendemos muito com esse caso e esse feito inédito é um avanço para a medicina e para os pacientes. Esse é o primeiro passo, evitar que os pacientes fiquem na diálise. A ambição depois é que possa substituir o transplante humano”, explica.
A expectativa apresentada pelo pesquisador é que o xenotransplante se torne uma realidade para pacientes nos próximos cinco anos. A proposta é avançar por etapas, com a possibilidade de, a longo prazo, substituir a necessidade de um transplante humano.


