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Entenda o mistério das camisinhas sujas espalhadas pela Liberdade

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Cartazes com fotos de mulheres e preservativos foram encontrados na região da Liberdade, em São Paulo. (Foto: Instagram)

São Paulo — Quem passa pela Praça da Liberdade, em São Paulo, pode ver um cartaz com a foto de uma mulher e uma camisinha colada sobre a imagem, em uma placa de trânsito. Abaixo da foto aparece o nome da vítima, que não será divulgado. A poucos metros, em outro poste, há um cartaz idêntico, com a mesma mulher e o mesmo método.

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Ela não é a única. Há relatos de cartazes espalhados pela capital com preservativos, alguns usados, colados na boca das vítimas desde pelo menos 2015. Muitas delas são de origem chinesa.

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O autor dos cartazes é um homem chamado Lucas Wang (nome fictício). Em um fórum na internet, usuários afirmam que ele teria sido aluno do curso de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalhado como executivo na Odebrecht, mas perdido o emprego, o dinheiro e a família após a Operação Lava-Jato. Por isso, estaria tentando se vingar de conhecidos.

Wang realmente estudou na UFF. Documentos da instituição indicam que, em 2017, ele foi suspenso da universidade por 30 dias por mau comportamento. No ano seguinte, a UFF abriu uma nova comissão de sindicância para avaliar novamente a conduta do então aluno.

Foi feita uma tentativa de contato com o então diretor da Faculdade de Economia da UFF, o professor Ruy Afonso de Santacruz Lima, mas não houve sucesso.

Sobre o trabalho na Odebrecht, não foi encontrado documento que comprovasse o vínculo. Em nota, a empresa declarou que, em cumprimento à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), “não consulta seus bancos de dados internos para atender a pedidos de terceiros, tampouco confirma ou nega a existência de registros referentes a qualquer pessoa física”.

O QUE EXPLICAM OS CARTAZES

Uma das vítimas de Lucas Wang dividiu um apartamento com ele na moradia estudantil da UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro. “O que ele faz não tem a ver com a lógica. Você não vai encontrar com nenhuma das vítimas que passam por esse problema, tá bem? Essa é uma coisa. Então, não, eu nunca fiz nada ao Lucas*, eu nunca ofendi o Lucas*, mas ele tem muitos processos contra mim”, afirma o homem, cujo nome também não será divulgado.

Wang entrou com uma ação por danos morais contra o ex-colega de quarto. O processo, porém, foi arquivado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), em setembro de 2019.

“Ele cola pela zona sul do Rio, centro do Rio, Niterói, São Gonçalo. O Lucas* anda com uma bolsa enorme com essas fotos, sabe? Ele tem a base dele, ele imprime isso, ele sai espalhando durante dias”.

O homem conta que seu rosto aparece em cartazes com camisinhas na região metropolitana do Rio há pelo menos cinco anos. A esposa também se tornou vítima de Lucas Wang. Os cartazes foram espalhados não apenas no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo.

“INGRATO”

A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar os cartazes. Foi solicitada à Secretaria de Segurança Pública (SSP) uma entrevista com o delegado titular do 1º Distrito Policial, mas a resposta foi que isso não seria possível para não prejudicar o andamento das investigações.

Uma das vítimas ouvidas registrou um boletim de ocorrência contra Wang. Ela relata que os dois se conheceram há 15 anos, em um evento da comunidade chinesa.

Em 2024, Wang a procurou para pedir ajuda na busca por um trabalho como tradutor. Ela afirma que chegou a pagar a passagem dele do Rio de Janeiro para São Paulo, para que pudesse trabalhar. Um mês depois, porém, Lucas foi dispensado.

A amiga indicou o rapaz para outras duas oportunidades, mas nenhuma deu certo, e ela não voltou a insistir. No início deste ano, Lucas pediu a ela um lugar para ficar em São Paulo, dizendo que havia conseguido um emprego na cidade. Ele chegou a perguntar se poderia se hospedar na casa dela.

A vítima não aceitou recebê-lo em sua casa, mas se ofereceu para ajudá-lo a encontrar um hotel. Mesmo assim, ele começou a espalhar pelas ruas da Liberdade cartazes com o rosto dela e uma camisinha.

“O fato aconteceu porque eu ajudei uma pessoa e a pessoa foi ingrata, e aí começou a colar [os cartazes] para se vingar, porque eu não quis continuar ajudando ele, não deixei ele entrar no meu apartamento, daí ele tá se vingando”, diz a mulher.

“Para mim, isso não me afeta. Tipo assim, tem um monte de gente que está mais preocupada. Eles falam assim: ‘Nossa, você não se sente envergonhada?’. Não, porque eu não fiz nada de errado, eu não sou criminosa, não é?”. Ela tentou perguntar a ele sobre os cartazes, mas nunca obteve resposta.

CRIME CONTRA A HONRA

Segundo o advogado criminalista Vitor Aurélio, a conduta é um caso típico de crime contra a honra, enquadrado como injúria no Código Penal brasileiro. Ao espalhar os cartazes, Wang estaria ofendendo não só o decoro, mas também a dignidade das vítimas.

O advogado explica ainda que esse tipo de crime é de ação penal privada. Isso significa que só haverá consequência para o autor se as vítimas contratarem um advogado para apresentar uma queixa-crime ao Poder Judiciário, no prazo de seis meses a partir do momento em que souberam da prática.

“Em outras palavras, nesse tipo de situação, não basta um simples registro de um boletim de ocorrência em sede policial, uma vez que, por determinação legal, o Estado não poderá fazer nada, não cabe ao Ministério Público adotar qualquer medida”, afirma.

Sobre as possíveis penas contra Lucas Wang, Aurélio diz: “A conduta perpetrada é classificada como de menor potencial ofensivo, o que representa, na prática, detenção de um a seis meses ou multa”.

Tags: São Paulo, Liberdade, Lucas Wang, camisinhas sujas

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