
A crise política e financeira no Paraguai mobiliza a atenção do governo brasileiro, que acompanha os desdobramentos e defende uma transição tranquila no país vizinho. (Foto: Instagram)
Com quase 200 anos de relações diplomáticas, mais de mil quilômetros de fronteiras em comum e uma parceria na gestão de uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, a crise no Paraguai acende um alerta no governo brasileiro, que monitora de perto a situação no país vizinho.
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Assunção enfrenta uma crise política e econômica desde a suspensão do Banco Ueno, uma das principais instituições financeiras do país. A crise levou à renúncia do presidente e de dirigentes do Banco Central do Paraguai (BCP), além do impeachment e da prisão do presidente do país, Santiago Peña.
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Para a diplomacia brasileira, que valoriza a integração regional, a estabilidade na América do Sul é considerada estratégica. A avaliação é que o atual cenário paraguaio pode afetar interesses do Brasil e comprometer mecanismos de integração que têm o país entre seus principais articuladores.
Ainda não há indícios de que a situação no Paraguai afete diretamente o Brasil, mas o Planalto e o Itamaraty acompanham de perto os desdobramentos e temem que a crise provoque instabilidade regional. Os dois países também administram a Hidrelétrica de Itaipu e são parceiros no Mercosul, o que estreita os laços entre as nações.
CRISE NO PARAGUAI
- O Paraguai enfrenta uma crise política e financeira desde que o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a suspensão das operações do Banco Ueno, após identificar problemas de liquidez na instituição financeira.
- O Ministério Público abriu uma investigação, e ao menos oito pessoas ligadas ao grupo gestor do banco foram presas.
- A crise também alcançou a cúpula do Banco Central: o presidente e dois diretores renunciaram aos cargos. Antes de ser indicado para a presidência do BCP, o presidente da instituição comandava o Banco Ueno.
- O escândalo também afetou a República paraguaia: o presidente do país, Santiago Peña, sofreu impeachment em meio a acusações e suspeitas de envolvimento na crise do Banco Ueno. Peña foi acionista do grupo gestor do banco nos dois primeiros anos de seu mandato.
- Peña tentou antecipar o impeachment e renunciar ao cargo, em uma tentativa de manter o foro privilegiado e o posto de senador vitalício, mas o Congresso rejeitou a renúncia.
- Peña foi preso na noite de sexta-feira (6/11). Ele estava em casa, na capital Assunção, e foi detido pela Polícia Nacional.
INSTABILIDADE REGIONAL
Brasil e Paraguai mantêm uma relação estreita. Os dois países são membros fundadores do Mercosul e responsáveis pela gestão da Usina Hidrelétrica de Itaipu, um dos principais vínculos entre Brasília e Assunção. O Paraguai também abriga uma das maiores comunidades brasileiras no exterior, com mais de 250 mil brasileiros vivendo no país.
Os vínculos entre Brasil e Paraguai fazem com que crises no país vizinho não fiquem limitadas às próprias fronteiras. Conforme a dimensão e a duração dos problemas, seus efeitos podem chegar ao Brasil, atingir interesses de empresas brasileiras e prejudicar projetos de integração regional.
Considerado um dos principais organismos de integração econômica do Cone Sul, o bloco pode ter suas negociações dificultadas por uma crise prolongada em Assunção. O cenário também pode abalar a confiança entre os governos e criar entraves à coordenação de políticas comerciais e de infraestrutura — tema importante para o Brasil, especialmente para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em uma América do Sul que já enfrenta desafios de articulação, a instabilidade em mais um país pode elevar as incertezas sobre a capacidade de cooperação regional. Nesse contexto, o professor e cientista político Rogerio Pereira de Campos avalia que o Brasil pode voltar a ter de buscar a normalização da região.
“Como maior país e economia da região, o Brasil pode ter de tentar equilibrar a situação. Um desequilíbrio político ou econômico não é saudável e também pode produzir efeitos negativos para o Brasil”, avalia Campos.
Ainda assim, o governo brasileiro aborda o tema com cautela. Em respeito à soberania paraguaia, integrantes do Planalto e do Itamaraty consideram a crise um assunto interno de Assunção, embora acompanhem atentamente seus desdobramentos. O Brasil também espera que a transição de governo ocorra de forma tranquila após o impeachment de Santiago Peña.
Na noite dessa sexta, o presidente Lula desejou sucesso ao novo presidente do Paraguai, Pedro Alliana, que assumiu o comando do país após o impeachment de Santiago Peña.
Em uma mensagem divulgada nas redes sociais, Lula declarou que pretende manter uma relação de cooperação com o novo governo e estreitar os laços entre os países. Alliana era vice de Peña.
“Desejo ao novo Presidente do Paraguai, Pedro Alliana, empossado na noite de hoje, pleno êxito em suas novas funções. Espero poder trabalhar com ele de forma aberta, franca e cooperativa, pelo fortalecimento da relação bilateral e pelo avanço da integração na América do Sul”, escreveu o presidente brasileiro.
O petista também disse que espera receber Alliana em Brasília para tratar dos interesses comuns dos países e renovar o impulso à relação diplomática.
“Espero recebê-lo em breve em Brasília, ocasião em que poderemos analisar nossa agenda bilateral e dar novo impulso aos nossos históricos laços de amizade”, acrescentou.
ITAIPU
Apesar da crise no país vizinho, que compartilha a gestão da terceira maior hidrelétrica do mundo, a Itaipu Binacional afirmou que o escândalo não deve afetar a operação brasileira.
“A Itaipu Binacional esclarece que a margem brasileira não tem recursos financeiros sob sua gestão depositados ou aplicados no Ueno Bank”, declarou a empresa. “As aplicações financeiras da Entidade seguem normas e procedimentos internos, com critérios de segurança, liquidez e rentabilidade, e são administradas conforme as competências de cada margem. A operação da Itaipu continua normalmente, sem impactos na produção e no fornecimento de energia”.
Inaugurada em 1982, a Usina Hidrelétrica de Itaipu é uma parceria entre Brasil e Paraguai, que construíram juntos a estrutura no Rio Paraná, na fronteira dos dois países.
A empresa pertence em partes iguais às duas nações, mas cada lado tem gestão independente.
Ainda não está claro como o escândalo bancário no Paraguai pode repercutir na Itaipu Binacional.
O lado paraguaio, porém, foi envolvido na crise do Ueno Bank. A empresa está entre as instituições públicas do Paraguai que aplicaram recursos no banco, que fechou as portas nesta semana.
O total investido na instituição ainda não foi esclarecido. Estimativas apontam, contudo, que a Itaipu Paraguai mantinha aproximadamente R$ 89,9 milhões no Ueno, aplicados pelo fundo de pensão da empresa. Com isso, os recursos dos aposentados da margem paraguaia da hidrelétrica ficaram em risco.
Tags: Brasil, Governo Lula, Paraguai


