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Janones planeja livro, elogia Nunes Marques e afirma que Flávio não é bolsonarista; veja vídeo

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André Janones relembrou a infância marcada por dificuldades e falou sobre sua atuação nas redes sociais durante a campanha de Lula. (Foto: Instagram)

Antes de aprender a falar com milhões de pessoas, ele sentiu o que era não ter comida. Filho de uma empregada doméstica, perdeu o pai aos dez meses. Percorria seis quilômetros para estudar e trabalhou como cobrador de ônibus para custear a faculdade de Direito. Acordava às quatro da manhã e passava o dia sem comer. A fome ficou para trás, mas deixou marcas.

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Talvez isso ajude a explicar a urgência de André Janones. Sua disposição para brigar, incomodar e falar alto quando acredita que ninguém está escutando. Antes das redes sociais, ele já fazia barulho para conseguir atendimento a quem aguardava uma cirurgia. Foi ali que percebeu que uma voz poderia abrir uma porta que permanecia fechada para muita gente.

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Na minha avaliação, Janones é o político mais relevante que apareceu no Brasil nos últimos oito anos, desde o surgimento do bolsonarismo. A eleição de 2026 ajuda a entender por quê. Não por acaso, em 2022 escrevi sobre a importância dele para a esquerda, inclusive com o título “Por que Janones é tão importante para Lula”, explicando que ele conseguia furar a bolha do PT e alcançar eleitores com quem o partido tinha dificuldade de dialogar.

Quando a campanha de Lula esperava uma vitória confortável, ele alertou que a disputa seria muito dura. Previu o risco de Flávio Bolsonaro começar na frente. Mais tarde, quando muitos já consideravam a derrota quase certa, apostou na virada e trabalhou para torná-la possível.

Enquanto Nikolas Ferreira reunia milhões de olhares em seus vídeos, Janones mobilizou milhões de pessoas. Fez de um canal de WhatsApp um exército de eleitores. Pessoas que aprenderam a compartilhar, conversar, chamar vizinhos e convencer parentes a sair de casa para votar. Na disputa pela virada em Minas e pela mobilização que contribuiu para reeleger Lula, o político desprezado pela própria esquerda superou o adversário que parecia imbatível nas redes.

Agora, essa experiência ultrapassa fronteiras. Janones se reuniu com Cristina Kirchner, recebeu convite para ajudar Pedro Sánchez, foi chamado pelo governo mexicano e passou a ser procurado por quem quer entender como enfrentar a extrema-direita, inclusive a União Europeia.

O menino que conheceu a fome chegou ao centro de uma discussão de interesse mundial. Hoje, quero conhecer o homem por trás dessa urgência e ouvir os bastidores de uma virada decisiva para a democracia brasileira.

André Janones, é uma grande honra recebê-lo no Que Dia Especial. O Que Dia Especial com o general de Lula.

Coluna – Janones, quero começar com uma questão que atravessa tudo o que acompanhei e escrevi sobre você nesta eleição. Antes do primeiro turno, quando a campanha de Lula esperava ganhar com tranquilidade, você dizia que Flávio Bolsonaro ficaria na frente. Depois, quando muita gente passou a achar quase certa a derrota de Lula, você afirmava que ele viraria. Como conseguiu antecipar esses dois movimentos?

André Janones – Olá, Matheus, e olá a todo o grupo. É um enorme prazer participar. Espero que possamos conversar sobre os bastidores desta eleição e, sobretudo, sobre o que esperamos dos próximos quatro anos da política brasileira.

Todas as minhas opiniões e previsões, entre aspas, nas redes sociais, são baseadas em ciência, números, matemática e estatística. Analiso o sentimento que percebo nas redes. Mal me lembro de como era o mundo antes delas, então consigo fazer uma leitura precisa do que predomina nesse ambiente. É com essas análises que faço minhas apostas, e elas nunca falharam. Não havia razão para duvidar que, desta vez, pela primeira vez, dariam errado.

Costumo brincar com pessoas próximas: “Tenho um Datafolha particular, um instituto de pesquisa só meu, mas com uma diferença: o Datafolha e os institutos em geral às vezes erram, e o meu nunca errou. Talvez um dia falhe pela primeira vez”.

Foi com base nisso que declarei, em 14 de agosto — e acertei até o dia, embora confesse que nessa parte também houve um pouco de sorte —, que em 30 dias, na segunda semana de setembro, em 14 de setembro, Flávio Bolsonaro ultrapassaria Lula nas pesquisas. Quase fui cancelado. Recebi uma enxurrada de críticas, mas o tempo mostrou que eu tinha razão. Chegou 14 de setembro e, exatamente naquele dia, Flávio apareceu pela primeira vez à frente.

Na mesma data, publiquei uma segunda parte: “Parte dois: Flávio terminará o primeiro turno na frente”. Isso também se confirmou. Com a mesma convicção, no dia 4 de outubro, assim que as urnas foram fechadas, afirmei que o presidente Lula seria reeleito, sem dúvida.

Essa certeza vinha de dois fatores. Primeiro, eu acreditava que no primeiro turno as pessoas votam um pouco distraídas. É preciso escolher deputado estadual, deputado federal, Senado e assim por diante. No segundo turno, a atenção se voltaria apenas para Lula e Flávio Bolsonaro. A diferença ficaria clara.

O segundo fator era saber o que conseguiria fazer nas redes, porque realizei algo parecido em 2022, embora em menor escala e com menos impacto. Ainda assim, também foi decisivo. Naquela época, criei um canal no Telegram com 200 mil pessoas e fizemos ali um trabalho muito forte.

Pensei, então: “Se em 2022, quando eu tinha 20% do tamanho e da voz que tenho hoje, consegui fazer aquilo, agora vou repetir de forma muito mais intensa”. Foi o que aconteceu.

Há mais um detalhe: meu maior receio era não chegarmos ao segundo turno. Esse risco existiu. Havia uma chance real de Flávio vencer no primeiro. Eu dizia a todos: “Está cada vez mais difícil conseguirmos chegar ao segundo turno, mas, se chegarmos, a eleição está ganha. Podemos passar dez pontos atrás de Flávio que viramos no segundo turno”.

Por isso, em 4 de outubro, enquanto todos lamentavam e estavam preocupados, eu comemorava e vibrava. Talvez eu tenha conseguido passar essa confiança às pessoas, que vieram conosco e atenderam aos nossos chamados.

Coluna – Mas isso vinha do algoritmo? O que você enxerga? Um número? Tento entender o que você entende e ninguém mais entende.

André Janones – Tenho uma média de tempo de tela, Matheus… Até saiu uma reportagem na TV falando em 11 horas. Onze horas é no pós-eleição. Durante a campanha, chegava a passar 17 horas conectado ao celular. Acompanho todas as redes e consigo perceber o sentimento predominante.

Também observo números, como o índice de popularidade digital divulgado. Quando previ que Lula seria ultrapassado por Flávio, em que me baseei? Naquele dia, o engajamento positivo de Flávio era 89 e o nosso, 11. De cada 100% das menções positivas nas redes, 89 eram para Flávio e 11 para nós. Foi quando afirmei: “É impossível eles não passarem”.

Por isso escrevi no tuíte: “Nem mesmo os bolsonaristas sabem o que está por vir”. Acho que nem eles tinham a certeza que eu tinha de que Flávio terminaria na frente.

É uma combinação de dados técnicos, do acompanhamento que fazemos do índice de popularidade digital, com uma observação artesanal e personalizada: eu olho as redes e sinto o sentimento da população.

Não consigo imaginar alguém vencer no engajamento das redes e perder nas urnas. Por isso repetia todos os dias: “A eleição está ganha”. Não havia possibilidade de alguém dominar as redes como estávamos dominando e perder na votação.

Se isso ocorresse, o mundo se debruçaria para entender o que aconteceu, porque diríamos: “Não entendemos nada de redes sociais”. O que sabemos hoje é que elas são essenciais para vencer uma eleição.

Coluna – Volte à noite do primeiro turno, com o resultado na tela. Qual foi a primeira conversa que teve com Lula ou alguém da campanha? O que você disse que precisava mudar imediatamente? Ou apenas comemorou?

André Janones – Não conversei com o presidente Lula nem com ninguém da campanha até quarta-feira, dia 7 de outubro, por volta do meio-dia.

Quando termina o primeiro turno, gravei um vídeo chamando as pessoas para entrar no canal. Encerrei de uma forma até um pouco autoritária, mas hoje acho que isso ajudou, porque as pessoas perceberam que eu estava transmitindo confiança.

No vídeo, eu praticamente dizia: “Se colocarmos 300 mil pessoas em um canal, viro a eleição para o presidente Lula. Sei o que estou fazendo. Sei o que fiz em 2022 e vou repetir”.

Terminava assim: “Então vocês vão entrar na…”. Eu dizia um palavrão. “Vocês vão entrar nesse canal agora e vão fazer tudo o que eu mandar. Cada missão que eu enviar, vocês vão cumprir. Se fizerem isso, o presidente Lula será reeleito”.

Fui dormir com 53 mil pessoas no canal. Quando acordei, às seis da manhã, já eram 120 mil. Achei estranho: como o canal podia dobrar durante a madrugada?

Quando me levantei para pegar o carro e viajar a Brasília, mandei vários áudios: “Temos uma semana para colocar 500 mil pessoas nesse canal. Se conseguirmos, viramos a eleição”. Eram seis da manhã. À meia-noite, já havia 500 mil.

Então disse: “Agora temos até a próxima segunda-feira para chegar a um milhão”. No dia seguinte, ao meio-dia, já tínhamos um milhão. Era terça-feira.

Vim para Brasília. Na quarta-feira, o presidente Lula se reuniu com os deputados recém-eleitos e todos os parlamentares que o apoiavam. Eu estava lá. No fim, quando todos terminaram de falar, me aproximei dele e disse — vou repetir exatamente as palavras: “Presidente, coloquei dois milhões de pessoas em um canal de WhatsApp em 48 horas. Grave um videozinho para mim. Se o senhor gravar, chegaremos a três, quatro, cinco milhões e ninguém nos segura”.

Ele gravou, publiquei o vídeo e, daí em diante, o canal não parou de crescer. Foi então que passei a conversar diretamente com a campanha e, na última semana, já tinha poder total de decisão na comunicação e era ouvido por todos.

Coluna – Quando disse isso ao presidente, você achou que ele acreditou que a vitória viria?

André Janones – Matheus, acho que naquele momento já víamos o reflexo de um novo Lula, que entendia a importância das redes sociais.

Quero contar uma situação interessante. Eu estava cercado por muitos deputados jovens, a bancada jovem, que não sabe como era a comunicação antigamente. Quando fiz o pedido, olharam para mim e disseram: “Grava o vídeo”. Não entendiam por que eu estava pedindo aquilo a Lula. Era como dizer: “Pegue o celular e grave agora”. Para eles, era simples.

Depois brinquei: “Eles não sabem como era no passado”. Talvez, alguns anos atrás, o presidente tivesse resistência a gravar aquele vídeo. Ele aceitou imediatamente. Acho que acreditou desde o começo.

Ontem perguntei a ele durante uma live. Lula disse que nunca duvidou da vitória e que sempre acreditou também. Aceitou gravar na hora, e não tive nenhuma resistência do presidente durante o segundo turno.

Coluna – Em que momento você começou a acreditar na virada? Houve uma missão, uma reação dos seguidores, um dado ou uma conversa que fez você pensar: “Pronto, vamos vencer”?

André Janones – Matheus, os jornalistas insistem muito nessa pergunta em todas as entrevistas. Na conversa que tive com o New York Times um dia depois do resultado, percebi que o jornalista fez a mesma pergunta três vezes. Não se conformava, porque acho que a matéria buscava o grande momento: “Mas quando você percebeu que ia dar certo?”.

Eu respondia sempre: “Sempre soube”. Quando perguntou pela terceira vez, disse: “Não vou dar a resposta que você espera, porque, de fato, sempre soube”. Ele perguntou: “Então, em 4 de outubro você já sabia que venceria?”. Respondi: “Sabia que venceríamos e também que seria por uma diferença muito grande”.

Não houve um momento em que comecei a acreditar, porque acreditei desde o início. Tive, sim, momentos em que minha convicção se confirmava, em que eu dizia: “Estou certo”.

Houve o dia do panelaço. Em tese, seria preciso pelo menos uma semana para mobilizar um panelaço. Mobilização é difícil. Gravei um vídeo às quatro da tarde, publiquei no canal e convoquei as pessoas — a entrevista seria às nove da noite — e conseguimos.

O segundo momento foi, para mim, o ato mais ousado da campanha: todos publicarem, no mesmo segundo, uma foto com a camisa da seleção fazendo o L. Deu certo. Conseguimos bugar o algoritmo.

Também houve os três mutirões que organizamos para levar pessoas ao canal. Em um deles, chegamos a sete milhões em 12 horas. Em outro, crescemos um milhão e meio em seis horas. Ali percebi que as pessoas estavam respondendo ao meu chamado.

Quero explicar mais um aspecto dessa convicção. Imagine que você está ao meu lado e eu digo: “Matheus, pegue aquele copo d’água para mim”. Você pega. “Pegue meu celular, por favor.” Você pega. “Pegue minha camisa.” Você pega. “Apague a luz.” Você apaga. “Veja o horário da minha próxima reunião.” Você olha.

Pedi cinco coisas, e você atendeu às cinco sem questionar. Aí faço um sexto pedido: “Matheus, busque meu lanche”. Por que eu acharia que você não faria isso? Se alguém perguntasse o quanto estou convencido de que você vai buscar, eu diria: “Aposto minha vida que vai”. Você atendeu aos cinco pedidos anteriores.

Esses cinco testes foram cumpridos imediatamente. E eram muito difíceis. Não se tratava de curtir uma publicação. Pense na complexidade por trás da ação da camiseta.

Medimos a dificuldade de engajamento pelo esforço que a pessoa precisa fazer. O mais fácil é assistir a um vídeo seu: ela fica parada. Para curtir, precisa mexer a mão. Para comentar, precisa fazer mais. Para enviar pelo WhatsApp, mais ainda: tem que copiar o link e encaminhá-lo.

No caso da camiseta, a pessoa precisava ter uma camisa da seleção, tirar a foto, decidir publicá-la, fazer isso no mesmo horário e formar o L. Era uma tarefa complexa, e as pessoas atenderam.

Por isso, durante a live de 24 horas, eu dizia: “Não existe possibilidade de as pessoas não fazerem o que estou pedindo”. Afinal, já tinham feito outras cinco vezes, em tarefas muito mais difíceis.

Na live, fiz um pedido simples: “Não quero que você consiga dois votos para Lula, nem três. Quero um. Só preciso de um voto”. Se eu pedisse dois ou três, muita gente não conseguiria e talvez nem tentasse. A pessoa pensaria: “Não tenho como conseguir três pessoas”.

Quando propus a missão de conseguir um voto, ela ficou fácil. Depois vi pessoas dizendo nas redes: “Quando ouvi Janones falar que bastava trazer mais um voto para Lula ser eleito, pensei: ‘Então ele já está eleito’, porque isso é muito fácil”.

Minha certeza vinha da mudança de comportamento do eleitor no segundo turno, quando se concentraria nos dois candidatos, e da confiança no que eu conseguiria fazer pelas redes. Depois, foi confirmada: sempre que convocava as pessoas para uma ação, elas faziam. Eram tarefas muito mais difíceis do que trazer um voto para Lula.

Não havia razão para pensar que, na sexta vez, quando pedi algo mais fácil do que nas cinco anteriores, as pessoas não fariam.

Coluna – Como você escolhia as missões? Como decidia: “Agora é hora desta missão”?

André Janones – Vou revelar algo em primeira mão, que ainda não contei a ninguém. Pretendo escrever um livro e falaria disso lá, mas vou contar agora.

Não sei como as pessoas vão receber a informação, se ficarão decepcionadas ou entenderão. O fato é que as missões eram só espuma, não champanhe. Tinham pouca importância. Não vou dizer que não tinham nenhuma, mas era muito pouca.

Na realidade, as missões serviam de isca para criar nas pessoas o sentimento de pertencimento, organizar a estratégia e promover letramento digital. Era isso que eu queria fazer: transmitir conhecimento e explicar o funcionamento do algoritmo para que elas próprias começassem a agir.

As missões eram distrações. Eu as usava para levar as pessoas até lá. Não acredito que curtir uma publicação na página de Lula tenha se convertido em voto. Isso não fez tanta diferença. A meta era reunir pessoas, criar uma comunidade e fazer com que pensassem: “Não estou sozinho, faço parte de um todo, de um coletivo”.

Claro que houve exceções. As duas ações que mencionei, o panelaço e a foto com a camisa da seleção, tiveram impacto. Elas mostravam às pessoas: “Não estou sozinho”.

Uma das formas de agir do fascismo é construir uma realidade falsa, na qual imagino que vou apanhar se comentar em uma publicação defendendo Lula, porque ninguém o defende. Isso faz você se sentir isolado: “Só eu apoio Lula, só eu apoio Janones. Ninguém gosta de Lula, ninguém gosta de Janones”. Esse sentimento não corresponde à realidade.

Quando organizamos o panelaço, muitas pessoas escreveram nas redes: “Não imaginava que alguém no meu prédio era Lula. Achava que só eu era”. Quando surgiram as fotos com a camisa da seleção, outras disseram: “Não sabia que tinha tantos amigos de esquerda”.

Isso mostra que conseguimos atingir a meta de mostrar às pessoas que não estavam sozinhas e criar esse sentimento de pertencimento. Esse era o principal objetivo, e nós o alcançamos.

Coluna – Se as missões eram espuma, alguma foi mais importante? E quando o livro será lançado?

André Janones – Antes, quero concluir a explicação sobre as missões. Além delas, considero que o principal objetivo do canal era o letramento digital: ensinar como o algoritmo funciona, o tempo de retenção de uma publicação, como a plataforma interpreta o conteúdo e as diferenças entre os algoritmos das redes, que não são iguais.

Há redes sociais em que não existe essa lógica de que você não pode criticar os adversários. Nelas, é possível criticá-los. Isso foi essencial.

Não vou dizer o nome, porque não quero dar espaço a um adversário, mas houve uma pessoa que foi candidata em algum momento — não vou revelar em qual eleição, senão será fácil identificá-la — e usou uma estratégia parecida com a minha, numa escala cem vezes menor. Não estou comparando os impactos. Ela não teve o resultado que eu tive, mas a estratégia era semelhante.

Por que a estratégia dela não alcançou o mesmo resultado que a minha? Porque a pessoa guardou o conhecimento para si. Nem todo mundo tem coragem de compartilhar o que sabe.

Recebi propostas de quantias enormes. Acho que não vou ganhar, durante a vida, o dinheiro de que abri mão ao não oferecer um curso pago. Recebi propostas inclusive do exterior. Queriam que eu gravasse vídeos explicando como administrar as redes sociais, colocasse o curso numa plataforma e cobrasse, por exemplo, R$ 1 mil pelo acesso.

Não quero fazer isso, porque meu propósito é compartilhar gratuitamente o que sei. Não acho que posso mudar o mundo, mas acredito que posso contribuir um pouco para enfrentar a extrema-direita e fortalecer a democracia no mundo com esse conhecimento.

Não tive medo de transmitir o que aprendi. Aquela pessoa teve, porque pretende vender um curso, ensinar estratégia e ganhar dinheiro. Eu não.

Esse foi o ponto decisivo: quando compartilho conhecimento, as coisas ficam menos dependentes de mim. E isso acontece cada vez mais. Hoje publiquei um comentário numa rede social sobre o assunto. As ações estão acontecendo cada vez mais de forma espontânea. Anteontem, uma hashtag chegou ao primeiro lugar no X sem que eu a tivesse direcionado.

Durante a campanha, eu dizia uma frase que pode parecer poética e até melodramática, mas é verdadeira: “Não existem mais comandantes nem comandados; somos todos um só povo”. Foi o que aconteceu em algum momento. As pessoas dependem cada vez menos de mim, e isso muda tudo.

Sobre o livro, ainda estou avaliando e não há data. Publiquei um primeiro livro depois da eleição de 2022, mas escolhi fazer uma espécie de manual de guerrilha, com dicas simples, rápidas e fáceis de entender. Queria popularizar o conteúdo e chegar a todos.

Agora quero escrever um compêndio sobre comunicação nas redes, uma obra extensa e densa. Há tanta coisa para transmitir que percebi que um filme não comporta, uma série também não — algumas estão sendo produzidas —, nem entrevista ou palestra. São muitos detalhes.

Espero produzir um livro bastante completo sobre o que fizemos nesta eleição e sobre como isso pode ajudar em outros lugares do mundo.

Coluna – Você disse que uma curtida em publicação é diferente de um voto e de virar um voto. Como relaciona uma coisa à outra?

André Janones – Para mim, as coisas estão totalmente ligadas. As pessoas dizem: “Curtida não é voto, visualização…”. Mas quero lembrar uma coisa: curtida não é apenas curtida, é uma pessoa. É um ser humano que esteve ali.

É como alguém fazer um sinal de positivo para você na rua. Não é só um gesto: é uma pessoa demonstrando que concorda com você. A partir daí, abre-se a possibilidade de diálogo. A curtida representa essa abertura.

Vejo alguns imbecis dizendo: “Você realmente acha que Janones converteu algum voto naquele canal? Só havia gente já convertida”. Nunca tive como objetivo converter o voto de ninguém.

Desde o início eu dizia: “Talvez eu seja a pessoa menos capaz de trazer votos para o presidente Lula, porque meu rosto está muito associado ao dele. Não tenho o discurso de quem é imparcial”.

Quando alguém de direita, de centro ou indeciso ouve Janones, não vai sequer terminar de escutar. Vai pensar: “Já sei o que ele vai dizer. Vai criticar Flávio e elogiar Lula. Quer me convencer a votar em Lula”. Perdi a possibilidade de parecer imparcial.

A intenção era reunir pessoas para lutar. Vou usar a comparação com um general: ele não precisa estar na linha de frente atirando, mas prepara os soldados para isso.

O objetivo era falar para quem já estava convencido e preparar as pessoas para a batalha em curso. Nesse sentido, fomos muito bem-sucedidos.

Curtida não é voto? Não. Mas, por meio dela, preparávamos as pessoas e as treinávamos para irem a campo buscar votos.

Coluna – Fiz um perfil seu contando que você percebeu o risco eleitoral de Flávio num encontro no elevador. Esperava uma reação agressiva, mas encontrou um sujeito brincalhão, que pediu para você pegar leve. Por que aquela conversa fez você entender que Flávio Bolsonaro seria tão difícil?

André Janones – Matheus, você está acompanhando bem minha trajetória, porque eu nem lembrava para quem tinha contado isso. Não sabia que já havia falado publicamente. A história aconteceu.

Fiz uma aposta com meu colega e amigo Pedro Campos, deputado federal, há dois ou três anos. Naquela época, era uma ideia completamente absurda dizer que Flávio seria candidato. Lembrem como era três anos atrás: falavam do próprio Jair ou de Eduardo. Não fazia sentido.

Apostei uma caixa de uísque. Não sei o que farei com ela, porque não bebo. Eu disse: “Flávio Bolsonaro será o candidato a presidente do Bolsonaro”. Ele perguntou: “De onde você tirou isso?”. As pessoas também citavam Tarcísio e vários outros nomes, mas Flávio não aparecia.

Expliquei: “Porque Flávio é o único dos filhos que não é bolsonarista”. E ele não é. Flávio é um homem do Centrão, do esquema, das negociatas e do dinheiro.

Quando fui pré-candidato à Presidência da República, convivi com alguém que não vou identificar, que veio coordenar minha campanha presidencial e havia coordenado a campanha de Bolsonaro em 2018. Essa pessoa dizia: “Flávio é o único dos Bolsonaros que gosta de dinheiro, e gosta muito. Os outros são malucos, reacionários, fascistas, mas não estão tão preocupados com dinheiro. Estão focados na ideologia fascista. Quem gosta mesmo de dinheiro é Flávio Bolsonaro”. E dizia: “O corrupto ali é ele”.

Em 2023, acho que em 2022, antes mesmo do processo eleitoral da outra eleição — não consigo lembrar agora —, eu seguia para a Procuradoria Parlamentar, no prédio do Congresso. Entrei no elevador e, no andar seguinte, Flávio entrou falando ao telefone.

Naquela época, eu o atacava com dureza e usava palavras como “bandido”. Fiquei um pouco tenso quando ele entrou. Pensei: “No mínimo, vai fingir que não me conhece, e eu farei o mesmo”.

Ele tinha uma desculpa perfeita, porque estava ao telefone. Interrompeu a ligação e disse: “Ô, Janones, pega leve comigo, cara. Você está batendo muito”. Também brincou: “Meu lombo já não aguenta mais. Estou todo machucado”. Sorriu e me deu um tapinha.

Entendi. Pensei: “Esse homem não é ideológico, não é um bolsonarista. É alguém do jogo, da política. É quem vão tentar apresentar como um Bolsonaro moderado”. Foi o que aconteceu agora.

Coluna – Você ajudou Lula em 2022. Isso me impressionou muito e até escrevi a respeito. Mas passou boa parte do governo sem reconhecimento. E nem acho que você buscasse isso, pelo pouco que conheço de você.

André Janones – Primeiro, não é que eu não quisesse reconhecimento. Nenhum ser humano — e quem disser o contrário será hipócrita — deixa de querer que seu trabalho seja reconhecido. É claro que quero.

Mas também sou bastante sensato e sei qual é meu tamanho, onde estou e quando cheguei. Quando, depois do trabalho de 2022, as pessoas diziam “Janones merece isso, merece aquilo”, eu respondia: “Gente…”.

Não estou negando meu mérito. Costumo dizer que, às vezes, a humildade fica perto da hipocrisia. Não me considero excessivamente humilde nem alguém que se acha. Sei qual é meu tamanho e meu papel, mas não vou além disso.

Eu sabia que tinha sido decisivo em 2022. Mas dizia: “Acabei de chegar”. O presidente valorizou e reconheceu meu trabalho. Nunca deixou de fazer isso.

“Mas ele não lhe deu um ministério.” Desde sempre deixei claro a ele que não queria ocupar um ministério, como fiz agora. Há quem diga: “Ele poderia ter oferecido e você recusado”.

E as pessoas que estão com ele desde os anos 1980? E quem ajudou a fundar o PT? Elas não têm mérito? Quem ficou ao lado dele quando foi preso? Quem o visitava no presídio em Curitiba? Eu? Quem ajudou a criar o PT? Quem permaneceu com ele depois das derrotas?

Acreditar em Lula agora é fácil. Quero ver acreditar nele quando disputou em 1989 e depois perdeu em 1994 e em 1998.

Eu reconhecia meu valor, mas olhava ao redor e pensava: “Cheguei ontem. Há muita gente que também tem valor. Antes de me valorizarem, essas pessoas precisam ser valorizadas”. Isso não é humildade, é um fato. Humildade seria me apresentar como alguém menor do que sou. Não é o caso.

Tive um papel importante, mas outras pessoas também tiveram. E Lula sempre reconheceu meu trabalho. Na primeira vez em que estive com ele no Palácio da Alvorada depois das eleições, o presidente disse em voz alta, diante de várias pessoas: “Nunca vou conseguir pagar o que você fez por mim nas eleições passadas. Sem você, eu não teria vencido”.

Isso é reconhecimento. Ele nem sempre aparece como cargo ou espaço. Sempre fui reconhecido.

Coluna – Em 2026, o que precisou ocorrer para a campanha começar a ouvi-lo? Qual foi a resistência mais difícil de superar dentro do próprio campo político?

André Janones – É difícil apontar a maior dificuldade que enfrentei nas eleições de 2026, porque enfrentei todas e, ao mesmo tempo, nenhuma. No primeiro turno, tive todas e não consegui superar nenhuma. Ninguém me ouviu.

Vou contar mais um episódio que nunca revelei. Fui a Minas apenas duas vezes durante a eleição. Deixei minha campanha de lado para fazer a do presidente. Achei até que poderia perder a eleição, e minha votação baixa mostrou que eu tinha razão.

A primeira viagem foi para um evento em Montes Claros, dez dias antes da eleição. No fim, subi no trio. Nesses eventos com o presidente, eu não costumava ficar no trio: permanecia no meio do povo, fazendo campanha e tentando virar votos. Às vezes encontrava Lula no final. Muitas vezes nem o via, como aconteceu na Paulista, no sábado anterior ao primeiro turno.

Nesse evento, quando tudo terminou, ele veio até mim e perguntou: “Você está vendo o que está acontecendo nas redes sociais? Vai deixar isso acontecer?”.

Senti uma grande responsabilidade. Mas pensei: “Não vou deixar acontecer, mas ninguém me procura”. Não disse isso a ele; apenas pensei.

Saí de lá com a sensação de que o presidente da República tinha me perguntado em particular: “Você vai deixar acontecer o que está acontecendo na internet?”. Ao mesmo tempo, eu não tinha apoio e ninguém me procurava.

No primeiro turno, ninguém me ouviu. No segundo, foi exatamente o contrário. Não precisei gritar para ser escutado. Fui ouvido desde o começo. Tudo o que eu dizia virava regra. Passei de um extremo ao outro sem transição: num dia, ninguém considerava nada do que eu dizia; no seguinte, todos me escutavam.

Não sei explicar por que isso aconteceu. Nesta semana, publiquei uma pergunta sobre o assunto nas redes e recebi mais de 50 mil comentários. Nas entrevistas à imprensa estrangeira, essa é a única questão que não sei responder.

Cristina Kirchner me perguntou isso na Argentina. A visita estava prevista para durar 20 minutos, mas ficamos três horas conversando e trocando experiências. Ela fala muito, assim como eu, e em ritmo acelerado. Tivemos grande afinidade.

Quase no fim, ela perguntou: “Por que as pessoas obedeciam você, seguiam seus pedidos e suas orientações? Por que decidiram escutá-lo?”. Respondi: “Cristina, essa é a única coisa que não sei explicar”.

Sei falar sobre o que fiz e sobre a estratégia. Mas há algo curioso: não aprendi nada durante o segundo turno.

Faço a comparação com um cantor de bar: ele canta a mesma música para dez pessoas há dez anos. Depois vai a um programa de TV e se torna uma celebridade mundial. Não canta melhor depois da fama. A música, a entonação e a banda continuam iguais. Apenas as pessoas começaram a ouvir.

Tudo o que falei no segundo turno já dizia no primeiro, no ano passado e em 2022. Por alguma razão que não consigo explicar, as pessoas simplesmente resolveram me escutar.

Coluna – Ontem, Lula admitiu que, se não tivesse terminado o primeiro turno atrás, talvez não percebesse a importância das redes sociais. O que sentiu ao ouvi-lo, em uma palavra?

André Janones – Fiquei feliz. E aliviado, acho que posso dizer. Pensei: “Agora não será mais preciso dar murro em ponta de faca”.

Coluna – O que você compreendeu sobre o eleitor que Nikolas Ferreira não compreendeu?

André Janones – Muito do que sei vem da minha capacidade de ouvir as pessoas. Elas se identificam com o que é verdadeiro. De um lado, havia alguém organizando um exército e ensinando as pessoas a usar o ambiente digital. Do outro, alguém dançando e dizendo: “Vamos fazer bloquinho”. Acho que ele acreditou que as pessoas eram imbecis, mas esta eleição mostrou que o povo é muito mais inteligente do que eles imaginam.

Coluna – Você ficou com muita raiva quando Kassio Nunes tirou o canal do ar? Há algum bastidor importante daquele dia?

André Janones – Nenhuma, sinceramente. E, mesmo que tivesse ficado, não falaria disso publicamente.

O que tenho dito não é hipocrisia. O fascismo tem três grandes inimigos. Seu objetivo final é enfraquecer a democracia e destruí-la por dentro.

Um deles é o Poder Judiciário. Querem colocar as pessoas contra a Justiça. Quando descredibilizo a Justiça, ataco um ministro e, no dia seguinte, sai uma decisão contra mim, posso alegar: “É perseguição, porque eu o critiquei”.

O segundo inimigo é a imprensa. Não querem uma imprensa livre e atacam jornalistas o tempo todo. Se o que você publica, o que é publicado por vocês, deixa de ter credibilidade, qual se torna a única fonte confiável? Eu mesmo.

O terceiro é a classe artística e a cultura em geral, pelo mesmo motivo. Elas podem formar pensamento crítico e, ainda mais perigosamente, levar conteúdo político junto com o entretenimento, por meio de uma música ou de um filme.

Meu grupo, e a minha atuação, não fará ataques às instituições. Discordei da decisão do ministro e me manifestei nos autos.

Vou contar um bastidor. Minha advogada tinha uma audiência com a juíza substituta e perguntou se eu queria acompanhá-la. Fui. Ao fim do despacho, falei à juíza: “Não queremos atacar as instituições. Respeito a decisão do ministro, embora discorde pelos motivos A, B e C”. Foi uma fala bastante conciliadora.

Ela me perguntou: “Você gostaria de dizer isso a ele?”. Respondi: “Gostaria”. Ela disse: “Ele não costuma receber, mas acredito que vá atendê-lo”.

Ele me recebeu e foi muito atencioso. Não tomou nenhuma decisão na hora, agiu como deveria agir um ministro naquele momento. Para mim, foi uma postura séria. Não estou avaliando toda a trajetória dele, mas aquele ato, naquele dia.

Ele agiu de forma imparcial e disse: “Vou me manifestar nos autos, compreendi seus argumentos”. Quatro horas depois, liberou o canal, antes de se completarem 48 horas.

Tenho muitas ressalvas à atuação dele no conjunto, mas jamais usarei minha voz nas redes para fazer essa cobrança. Vou tratar disso nos autos. Não considero papel de um agente político levar um ministro da Suprema Corte para um debate político, enquanto o ministro, ao menos em tese, não deveria participar de debates políticos.

Coluna – No meio disso tudo, você foi parar na UTI por causa de uma arritmia. Como viveu aqueles dias? O que sentiu ao ver o exército continuar funcionando, com Bernardo lá? Como foi aquele período?

André Janones – Só para concluir sobre a suspensão do canal: foram três pedidos para tirá-lo do ar. Em cada um, ganhamos mais de um milhão de inscritos. O pedido de Flávio Bolsonaro também contribuiu bastante.

Sobre a UTI, durante o segundo turno eu viajava de carro porque, no aeroporto, as pessoas sempre me pediam uma foto, com muito carinho. Não conseguia atender a todos e cuidar do canal ao mesmo tempo. Achava que precisava ficar conectado o tempo inteiro. Também havia o problema do sinal de internet durante o embarque, e eu permanecia ligado ao canal sem parar.

Decidi: “Vou viajar de carro”. Cheguei a percorrer cinco mil quilômetros em uma semana. A gente se alimenta mal, come qualquer coisa que encontra na estrada e, principalmente, não bebe água, porque senão precisa parar toda hora para ir ao banheiro.

Tudo isso se somou à falta de sono. Acredito que o pano de fundo do que passei foi a privação de sono. Eu dormia oito horas por noite. Já tinha acontecido de dormir seis ou até cinco, mas passar três semanas dormindo duas horas por noite foi algo inédito.

No debate, estava exausto. Para mim, era apenas cansaço. Quando fui falar com os jornalistas, avisei: “Estou muito cansado, nem sei se vou conseguir falar”.

Depois notei que, enquanto Sidônio concedia entrevista com o presidente Lula, eu estava atrás tentando puxar o ar e sem conseguir respirar. Mas achei que fosse cansaço.

Cheguei ao hotel, fiz uma live rápida, sentei na cama e conversei por telefone com minha médica sobre o que sentia. A certa altura, tremia tanto que já não conseguia segurar o celular. Ele caiu.

Chamei rapidamente um assessor que estava no quarto: “Estou passando muito mal”. Pedi para ele terminar a conversa com a médica. Ela disse: “Traga-o para cá agora”.

Cheguei e fui direto para a UTI. Minha pressão estava, acho, em cinco por três, se não me engano. Muito baixa. Me deram oxigênio e me levaram direto para a UTI, mas logo me recuperei.

O diagnóstico foi de uma arritmia grave, mas sem sequelas ou problemas crônicos. Ainda de lá, já passei uma missão e voltamos com tudo. Eu dizia: “Preciso ficar vivo pelo menos até dia 25”. Graças a Deus, deu certo.

Coluna – Depois da vitória, houve alguma conversa longe das câmeras que você possa contar entre o general e o marechal?

André Janones – Houve, mas acho que já contei tudo. Conversamos algumas vezes por telefone. Falei com ele no aniversário e, depois, ele me chamou para almoçar.

O almoço foi descontraído. Não era uma conversa sobre política ou futuro, mas sobre assuntos pessoais e curiosidades. Ele quis saber quem prepara minha comida e com que frequência visito minha família. O clima foi mais pessoal.

Também avisei antes à imprensa que não aceitaria um ministério. Disse a ele: “O senhor não me fez convite, e não sei se está pensando nisso, mas já quero adiantar que não tenho interesse em ocupar um ministério. Se o senhor determinar e disser que é uma missão, uma ordem, eu cumprirei. Mas realmente não quero ir para um ministério”.

Concluí: “O senhor quer que eu faça o mesmo que fiz na eleição? Se esse for o objetivo, não posso assumir um ministério. Também não posso presidir comissão, ser líder do governo ou da maioria. Preciso estar livre. Todos esses cargos exigem burocracia e compromissos institucionais. Não posso assumir isso. Se o senhor quiser que eu entregue o mesmo resultado, não ocuparei um ministério”.

Ele fez o gesto com a mãozinha de quatro dedos. Segurei a mão dele, ele fez um carinho e disse: “Então está fechado”. Perguntei: “Posso comunicar à imprensa?”. Ele respondeu: “Pode”. Foi assim.

Coluna – Você recebeu muitos convites, e tenho acompanhado e publicado isso. Mas quero voltar ao menino de Ituiutaba. Seu pai morreu quando você tinha dez meses, e sua mãe criou os filhos trabalhando como doméstica. Que lembrança daquele período melhor explica o homem que você se tornou?

André Janones – Acho que muitas das minhas sensibilidades vêm dali. Gosto muito de uma frase: “Tive o privilégio de uma vida sem privilégios”.

Por ter passado por isso, conheço a dor das pessoas não apenas de ouvir falar ou ler, mas porque já senti a maioria dessas dores. A fome deixou marcas profundas.

Meu pai morreu quando eu tinha dez meses. Depois tive um pai de criação, que morreu de câncer no pulmão assim que assumi o mandato de deputado federal.

A fome que digo ter sentido foi apenas uma pequena amostra. Nunca dormi sem ter feito uma refeição. Quando falo em fome, quero dizer, por exemplo, que houve épocas em que fazia a única refeição do dia às três da tarde. Ela servia como almoço e jantar e me sustentava até o dia seguinte.

Mesmo essa pequena experiência deixou traumas. Até hoje é difícil falar disso sem me emocionar. Imagino quem passou por uma fome mais intensa e quem vive sem desnutrição absoluta, mas deseja comer alguma coisa e não consegue.

Tudo isso me deu sensibilidade para entender as necessidades mais urgentes das pessoas. Talvez esse senso de urgência tenha me impedido de fazer campanhas fofas, porque sempre compreendi que as pessoas não estavam ali para curtir um emoji simpático. Procuravam alguém que expressasse sua dor e indignação.

Conheço pessoas — não críticos, mas apoiadores, gente que gosta de mim, me segue, votou no presidente Lula e faz parte do exército — que acham engraçado o meu jeito de me comunicar.

Costumo dizer: “Quer descobrir se você é do povo ou se já perdeu o cheiro do povo, se esqueceu o que é ser povo? Se acha engraçada minha maneira de falar, mesmo sendo fã de Janones, lamento, mas já não sabe o que é ser povo. Garanto que alguém do povo não acha graça, porque simplesmente se comunica assim”.

Quem considera engraçado já não se lembra do que é ser povo. Carrego essa urgência de quem não tem tempo para ficar fazendo emoji fofo nas redes. É preciso colocar comida na mesa e encarar o transporte público lotado.

As marcas de uma infância e adolescência difíceis são meu maior patrimônio. Elas me permitem falar com o povo de igual para igual.

Coluna – A fome ainda acompanha você, de algum modo?

André Janones – Vou contar algo. Sempre digo que devo tudo o que conquistei na vida, primeiro, a Deus. Sou um homem de muita fé. Em segundo lugar, devo à psicanálise, que me ajudou a me conhecer e a superar meus traumas.

Há algo que só consegui curar na psicanálise: a dor da fome era tão intensa que, até poucos anos atrás, eu calculava meu patrimônio pelo número de refeições que poderia fazer.

Vou usar números aleatórios, apenas como exemplo. Imagine que tenho R$ 200 mil de patrimônio. Eu calculava: “Quanto gasto por dia para comer bem? Um café da manhã, um almoço…”. Vamos supor que sejam R$ 200 por dia. Estou inventando os valores, não fazendo uma média.

Fazia a conta: R$ 200 por dia equivalem a R$ 6 mil por mês e R$ 72 mil por ano. “Então tenho o suficiente para ficar tranquilo por três anos.”

Eu media minha vida pelo número de refeições que poderia fazer. Isso mostra o peso de quem carrega na alma a dor de ter enfrentado dificuldades e conhecido a fome. Esse é o tamanho do trauma.

Hoje, porém, vejo isso como um grande privilégio, porque será o motivo para eu nunca perder a emoção que sinto agora, nem minha conexão com o povo, nem me deixar deslumbrar pelo poder, pelas novas amizades ou pelos lugares que frequento. Devo tudo isso às dificuldades que vivi.

Coluna – Você comentou sua fé. É evangélico e tem Caio Fábio e Ed René Kivitz como referências. Como mantém essa fé? Há um vídeo em que você chora muito e diz que nunca abandonará Jesus. O que isso representa?

André Janones – Não uso minha fé para manipular pessoas. Alguns acham que não temos um Estado laico e que devemos impor nossa fé. Outros confundem Estado laico com um Estado em que ninguém pode manifestar sua fé.

Não escondo minha fé. Jesus é meu Senhor e Salvador, e entreguei minha vida a ele. Mas jamais usarei isso politicamente.

Gosto de uma frase do meu pastor: “Jesus não precisa de advogado. Não precisa que alguém o defenda ou brigue por ele. Jesus precisa de testemunhas”. Basta viver como testemunha.

Também gosto de uma frase de Caio Fábio: “Deus não existe, Deus é”. Não digo que creio em Jesus, porque, quando acredito em algo, é porque não sei e deposito fé naquilo. Eu sei Jesus, vivo Jesus e experimento Jesus.

Caio Fábio é minha maior inspiração. Ele foi um dos pioneiros que me ajudaram a entender que, quanto menos religiosidade, mais perto de Deus eu estaria. Quanto mais me afastei dos dogmas e dos líderes religiosos, mais perto me senti de Deus.

O Deus em que acredito é puro amor. Nele não há lugar para julgar, condenar ou apontar o dedo para ninguém. Sirvo a um Deus que chamou pecadores para caminhar ao seu lado.

Há muitas controvérsias envolvendo meu nome. Algumas são falsas, outras verdadeiras, e há as que são ampliadas. Mas vejo um aspecto positivo nisso: essas histórias impedem que as pessoas criem um mito a meu respeito.

Não quero ser mito nem cidadão de bem. Quero ser um homem comum, como todos.

Jesus disse: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Quero ao meu lado pessoas imperfeitas, que erram e acertam, mas têm o propósito de seguir um caminho correto e tentar não errar novamente.

Respeito todas as religiões. Houve uma situação curiosa em Belo Horizonte, num evento de que participei. Uma pessoa me abordou na rua e perguntou — não era menosprezo, apenas não conheço os termos e os rituais da religião que vou mencionar — se poderia colocar minha foto… Não me lembro se falou em orixá ou em algum elemento do candomblé.

Olhei e respondi: “Pode”. Ela perguntou de novo: “Você entendeu? Vou colocar sua foto…”. Disse: “Sim, entendi. Pode”. Então ela perguntou: “Mas você não é evangélico?”. Respondi: “Sou evangélico, mas você não é. Assim como você respeita minha fé, eu respeito a sua. Não acredito no que você acredita, mas isso não diz respeito à minha crença. Diz respeito à sua e ao que você vai dizer ou pedir por mim”.

Isso resume minha visão da fé. Para mim, ela é íntima e particular. Não a escondo, mas também não preciso exibi-la nem usá-la politicamente.

Coluna – Você ajudou a construir essa vitória e quer ir para a Câmara dos Deputados. O que pretende fazer com a força política que conquistou? Que responsabilidade passou a ter diante de quem confiou em você? Muita gente no Brasil acredita em você. O que quer fazer com isso?

André Janones – Quero dar governabilidade ao presidente Lula. Isso significa o Exército do Lula: as pessoas que você mencionou e que confiam em mim. Eu as represento, mas sei que, sozinho, não tenho força alguma.

Quero ajudar a garantir governabilidade a Lula porque a extrema-direita elegeu uma maioria enorme na Câmara e no Senado. Eles dizem que não deixarão o presidente governar.

Vou revelar algo que disse a ele em primeira mão. Durante a apuração, quando Lula venceu, minha primeira fala… Publiquei uma foto nas redes, sem legenda. Estou abraçando a cabeça dele e falando ao pé do ouvido.

O que disse naquele momento? “Nossa missão, a partir de agora, é garantir ao senhor a aprovação de governo que merece. Faremos do governo Lula 4 o mais popular que o senhor já teve”.

Quero contrapor a maioria da extrema-direita no Congresso, na Câmara e no Senado, com o apoio popular e a participação da população no governo. Assim, o presidente poderá superar esses obstáculos e não ficará refém do Centrão, da extrema-direita ou de ninguém.

Coluna – Você não acha que o ministério precisa ser mais jovem, mesmo depois do que me disse sobre quem estava ao lado de Lula quando foi preso e quando o PT começou? Não seria necessário ter pessoas mais novas no ministério?

André Janones – Existem pessoas que estão com ele há mais tempo e também são jovens. Há outros grupos que podem ser valorizados.

Não devemos desprezar a experiência dos mais velhos, mas realmente é preciso renovar. Acho que há espaço para essas pessoas.

Naquele momento, eu falava de algo mais ligado à minha situação. Eu nem sequer era de um partido de esquerda, estava filiado a um partido de centro e tinha acabado de chegar. Não é porque alguém desempenhou um papel na eleição de 2022 que automaticamente ganha espaço.

Esse espaço é conquistado aos poucos, e foi o que aconteceu. Agora tenho meu lugar e sou ouvido. Cada coisa no seu tempo.

Coluna – Talvez eu não entenda nada de política, mas, se fosse o presidente Lula, colocaria você exatamente ao meu lado.

André Janones – Mas estarei ao lado dele, Matheus. Vou ser ouvido. Acredito que terei bastante influência na comunicação. Só não ficarei preso a um cargo de ministro.

Coluna – Se sua mãe pudesse escolher uma cena de tudo o que você viveu até agora, qual seria? E qual delas você mostraria ao menino que saía cedo de casa sem saber quando comeria, que trabalhou como cobrador de ônibus e lutou para que as pessoas fossem atendidas no hospital? Uma cena que definisse André Janones, a pessoa mais importante da eleição de 2026, que levou o maior político de esquerda da história da América Latina ao quarto mandato.

André Janones – Acho que uma cena que passa pela cabeça dela — e também passou muitas vezes pela minha durante a campanha — é a seguinte: quando o presidente Lula deixou o mandato em 2010, eu estava no interior de Minas, recém-formado em Direito, num escritório mobiliado com peças da cozinha da minha mãe. Ela trabalhava como secretária ali, porque não tínhamos como investir no começo.

Eu disse a ela — e ela se lembra —, quando Lula deixava o governo: “Quando minha situação financeira melhorar, vou pegar um ônibus, ir a São Bernardo e ficar diante da casa dele todas as manhãs até o fim da tarde. Uma hora vou encontrá-lo, só para apertar sua mão e agradecer por tudo o que fez”.

Pense naquele homem que sonhava um dia apertar a mão de Lula e agradecer pelo que fez pelo país. De repente, ele está na Avenida Paulista discursando ao lado do presidente no dia da vitória. Fui convidado por ele para falar, porque nunca briguei por espaço. Nem sabia que faria um discurso naquele dia.

Ele me chamou, e depois aconteceu algo que me emocionou ainda mais. Assim que terminei de falar, saí. Cheguei a dizer em voz alta: “Vou embora agora para dar espaço para outras pessoas se aproximarem dele”.

Fui para longe, para outra parte do trio. Dois minutos depois, algumas pessoas vieram avisar: “O presidente está chamando você”. Voltei e era para a execução do Hino da Independência. Ele olhou para mim e disse: “Quero você ao meu lado durante a execução deste hino”.

Acho que isso representa bem a situação… É como alguém que sonhava conhecer um jogador de futebol e acaba ao lado dele tocando bola numa final de Copa do Mundo.

Tenho outras histórias que ainda quero contar, muito profundas, sobre os bastidores da campanha e meu passado. Mas podemos deixar para outra ocasião. Prometo voltar para conversar com você.

Coluna – Você acompanhará o presidente às Filipinas e à Turquia ou ficará no Brasil?

André Janones – Vou com ele. Viajo na segunda-feira.

Sobre os convites que recebi do exterior, sempre tenho falado… No caso da Espanha, por exemplo, fui chamado por dois partidos de lá, um deles o do primeiro-ministro.

Vou contar mais um bastidor, como você também tinha pedido no almoço. Conversamos sobre a viagem à Espanha. Eu disse: “Só vou se o senhor autorizar. Entre em contato com o ministro e veja como será. Vou para onde o senhor determinar”.

Outro bastidor: fui à Argentina para dar uma entrevista a um canal de televisão. Por que estou dando prioridade à imprensa estrangeira neste momento? Porque acredito que já contribuí aqui no Brasil com o que podia e compartilhei técnicas. Quero levar esse conhecimento para fora e alcançar mais pessoas.

Aceitei participar de uma entrevista na principal emissora da Argentina e viajei para isso. No domingo à noite, durante um jantar, alguém sugeriu: “Cristina quer conversar com você. Que tal visitá-la, em vez de falar por telefone?”.

Perguntei: “O presidente Lula sabe?”. Disseram que não. Respondi: “Então peçam para Cristina falar com ele”. Ela tentou algumas vezes, mas não conseguiu. No dia seguinte, telefonei para Lula e disse: “Presidente, não visitarei nenhum país sem que seja a pedido do senhor”.

Daqui em diante, farei isso conforme a solicitação e a autorização do presidente. Claro que, se eu for convidado como deputado para uma missão da Câmara dos Deputados, será diferente. Tenho independência como parlamentar. O mandato é meu, e o povo me elegeu.

Mas, se recebo um convite para falar sobre o exército, de quem é esse exército? Não é de Janones, é de Lula. Há uma hierarquia. Não me sentiria confortável falando sem a autorização dele, até porque tenho orgulho — e considero uma dádiva — de estar sob sua liderança. É assim que pretendo continuar.

Coluna – Minha família foi vítima da ditadura. Meus pais foram presos e brutalmente torturados. Minha mãe estava grávida do meu irmão mais velho. A extrema-direita é viúva da ditadura. É possível derrotá-la no mundo, deputado André Janones?

André Janones – Tenho absoluta convicção de que sim. É por isso que estou tão empenhado em dar entrevistas para veículos estrangeiros: quero mostrar que é possível.

Ontem falei com uma emissora da Alemanha e com o principal jornal de Portugal. Hoje tenho entrevista para um veículo da Suíça e dois da Espanha. Também há um do Japão, se não me engano.

Por que tenho tanta vontade de mostrar que isso é possível? Dá para repetir tudo o que fizemos no Brasil? Não. Primeiro, temos Lula, e não existe um Lula em todos os países do mundo. Segundo, há a minha figura, meu tom de voz e a maneira popular como me comunico.

Mas entre 30% e 40% do que fizemos pode ser reproduzido. É uma receita aplicável em qualquer lugar, porque se baseia em técnicas algorítmicas.

É esse conhecimento que quero levar ao mundo. Talvez não sejam 30%, talvez sejam 5%. E esses 5% podem ajudar a decidir uma eleição.

Quero transmitir a mensagem de que é possível derrotar a extrema-direita. Não vou dizer que é “fácil”, porque seria um pouco ousado. Ia dizer “mais fácil”, mas prefiro dizer “menos difícil”. É menos difícil do que muita gente imagina.

Acredito de verdade que, em cinco anos, no máximo, o mundo estará definitivamente livre da extrema-direita. Vamos vê-la como um capítulo triste da história, como vemos hoje o nazismo. Acho que isso está muito perto.

Coluna – Você prevê, então, um cenário de hegemonia da esquerda, Janones?

André Janones – De jeito nenhum. Nenhum democrata defende hegemonia. Imagino um cenário com divisões ideológicas, como sempre houve: esquerda, direita, centro-esquerda, centro-direita e centro.

Vamos debater ideias. Mas não precisarei ter medo de conceder uma entrevista a Matheus e pedir a alguém que verifique antes se ele é bolsonarista, porque, se for, tentará destruir minha reputação.

Teremos um mundo de confronto de ideias, simplesmente. É nisso que acredito e é o que espero que aconteça em breve.

Tags: André Janones, Lula, política brasileira, redes sociais

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